ReactOS: Uma alternativa real ao Windows?


Encaremos os fatos: apesar das óbvias deficiências, o Windows ainda é o SO favorito da grande maioria dos usuários. O Linux, por sua vez, amarga uma injusta fama de “complicado”: muitos não migram para o Pinguim apenas para não ter que reaprender o “bê-a-bá” da informática.

Mas… e se alguém criasse um sistema operacional livre capaz de rodar a grande maioria dos programas desenvolvidos originalmente para o Windows? É aí que entra o ReactOS, um sistema operacional Open Source que visa ser binariamente compatível com o Windows.

Um pouco de História

Pode-se dizer que as sementes do projeto ReactOS foram lançadas em 1996 por Yannick Majoros, com o projeto FreeWin95. Na época, o Windows 95 ainda era novidade, e os desenvolvedores planejavam “cloná-lo” sob licença Open Source.

Após um ano de muita discussão, praticamente nada de concreto foi feito. No final de 1997 o projeto trocou de nome para “ReactOS” (o termo “react” vem de “reagir”). Agora sob a liderança de Jason Filby, os objetivos do grupo também mudaram: a equipe decidiu que seria bem mais proveitoso duplicar a arquitetura do Windows NT 4.

“O Windows XP e o Windows 2K são sistemas construídos sobre o NT4 – ou seja, são upgrades dele.” – declarou Filby em entrevista concedida em 2001. Ele continua: “Isto significa que a maior parte do que já fizemos (no ReactOS) é compatível com esses novos sistemas operacionais”.

Figura 1: Tela de Setup do ReactOS 0.3.9

Figura 2: Desktop do ReactOS - semelhança marcante com o Windows.

Atualmente, a equipe conta com inúmeros colaboradores ao redor do mundo – mas novos desenvolvedores são sempre bem recebidos. Desenvolvido em C e C++ e em sua maioria licenciado sob a GPL, o ReactOS ainda está em fase alfa (a última versão estável no momento da edição deste artigo é a 0.3.10).

Embora a ISO do CD de instalação esteja disponível para download, ainda não é recomendado o uso do ReactOS como SO principal. Aos iniciantes, é aconselhável que o ReactOS seja testado em emuladores de PC, como o VMware ou o QEMU.

Sala Limpa

O ReactOS é desenvolvido através de Engenharia Reversa no modelo “clean room” (“sala limpa”, em tradução literal). Neste método, o sistema a ser “refeito” deve ser examinado por uma pessoa tecnicamente habilitada para tal tarefa. Este examinador deverá descrever todas as especificações do software para um relator, que por sua vez criará um documento descritivo dos detalhes que deverão fazer parte do novo sistema.

As especificações descritas só poderão ser implementadas em código pela equipe de programadores após a liberação por parte de um assessor jurídico. Tudo isso é feito de modo a assegurar que nenhum copyright seja quebrado no processo.

No mais, o ReactOS Team divulga amplamente o fato de ter se baseado no código-fonte do WINE para implementar sua API win-like. “O ReactOS não tem como objetivo competir como WINE”, afirma o site do projeto. “Na realidade, a porção user-mode do ReactOS é quase integralmente baseada neste último, e os nossos times já cooperaram estreitamente no passado”.

Se o WINE é capaz de rodar inúmeros programas Windows a partir do Linux, que vantagens práticas alguém teria ao instalar o ReactOS? Segundo os desenvolvedores, a dobradinha “Linux + WINE” jamais poderia substituir um sistema Win32, “não somente pelo fato de muitos usuários acharem a transição para o Linux/BSD difícil, mas também por causa das decisões de design e implementação da arquitetura do Linux e do WINE, que evitam uma compatibilidade de 100%”.

Como o ReactOS é um sistema NT completo, existe também a questão da compatibilidade de drivers. Um usuário rodando ReactOS seria (teoricamente) capaz de instalar novos periféricos utilizando drivers de dispositivos desenvolvidos para os SOs da Microsoft, o que por si só já vem a ser uma vitória.

Atualmente, os desenvolvedores estão trabalhando em melhorias no sistema de reconhecimento de novos dispositivos de hardware – nosso já tão conhecido “plug-and-play”. O time divulgou que a versão 0.4 do sistema terá melhor suporte a dispositivos USB e diversos melhoramentos nas áreas de redes e multimídia. Espera-se que o sistema entre na fase “beta” na versão 0.5, que deve ser estável o suficiente para o uso cotidiano.

Figura 3: Nas horas vagas, que tal uma partida de Unreal Tournament?

Figura 4: BSOD: você ainda vai ver uma...

Cara de um, focinho do outro

De acordo com o site do projeto, “em seu estado final, o ReactOS será um SO completamente amigável. Se você já usou Windows, certamente perceberá que o ReactOS lhe será bem familiar. Sua curva de aprendizagem, se existir, será mínima, já que o ReactOS duplica a maioria dos elementos do ambiente gráfico do Windows.”

Basta olhar de relance para a interface do ReactOS para compreender que esta última afirmação foi feita ao pé da letra. Todos os elementos presentes no Windows também estão lá, desde o emblemático botão “Iniciar” até o ícone “Meu Computador”. A única grande inovação na interface do ReactOS é a possibilidade nativa de se lidar com múltiplos desktops virtuais — no Windows, isto só é possível através da instalação de um “PowerToy”.

O ReactOS emula até uma triste característica do seu “parente” de código proprietário: a BSOD (“Blue Screen of Death”, ou “Tela Azul da Morte”). Em testes realizados para a redação deste artigo, tentamos instalar o BrOffice.org 3.1.0 no ReactOS 0.3.9. A instalação aparentemente correu bem, mas quando a máquina foi reiniciada, uma tela azul tomou conta do monitor.

É claro, devemos levar em consideração que o projeto ainda se encontra em fase alfa. Apesar de falhas menores como esta, diversos programas Windows rodam sem problemas na última versão do ReactOS. O AbiWord, por exemplo, roda muito bem, assim como alguns diversos jogos antigos como o Quake II e o Unreal Tournament. Também foram testadas versões antigas do Mozilla Firefox, com sucesso absoluto.

Observação: enquanto este artigo era redigido, o ReactOS Team liberou (no dia 5 de julho de 2009) o acesso à versão 0.3.10. De acordo com Kiepper (editor do blog ReactOS Brasil, sem vínculos diretos com o projeto), “A impressão geral é de que esta versão é um polimento da versão anterior, a 0.3.9”. Kiepper prossegue: “nesta versão foram implementados o suporte ao padrão Universal ATA, já sendo possível ao ReactOS reconhecer partições superiores a 8GB e discos no padrão SATA. Foi ainda implementado suporte a dispositivos USB como microfones e teclados, mas conforme aviso ainda estão instáveis e com bugs. O suporte a placas de rede foi estendido a mais de 20 modelos de diferentes fabricantes e um clone do Microsoft Paint foi introduzido”.

Imitado, mas nunca igualado

Se você pensa que o ReactOS é o único projeto do gênero, está redondamente enganado. Encabeçado por Shamsuddoha Ranju (engenheiro executivo da Siemens), um time de 30 desenvolvedores sediados em Bangladesh decidiu em 2003 criar o seu próprio clone do “Janelas”.

Segundo Ranju , a idéia básica para a criação do “Ekush OS” (como era chamado) surgiu por causa das recusas da Microsoft em traduzir o Windows para o idioma bengali. Problema: quando os binários da primeira versão do Ekush OS foram liberados – isso mesmo, não foi divulgado o código fonte – ficou óbvio que o sistema nada mais era que uma cópia “maquiada” do ReactOS.

De acordo com o Slashdot, foi necessário apenas que se fizesse uma varredura superficial nos arquivos executáveis do Ekush OS para que a string ASCII “ReactOS” aparecesse inúmeras vezes. Após a revelação do engodo, o site do projeto bengalês saiu do ar para logo retornar com uma nova versão do sistema, desta vez sem as strings do ReactOS.

De acordo com Greg “Gé” van Geldorp, ex-integrante do ReactOS Team, “O Ekush OS não apenas violou os direitos do ReactOS (por ter criado um software derivado sem divulgar a autoria do código-fonte), mas também violou os direitos dos projetos WINE, FreeType e QEMU, de quem o ReactOS deriva código”.

Após este escândalo é desnecessário dizer que o projeto bengalês sumiu do mapa.

Conclusões

Antes de testar o ReactOS pela primeira vez, confesso que tinha muitas dúvidas quanto à real utilidade do projeto. Eu estava acostumado a rodar minhas aplicações Windows preferidas através do WINE, e não conseguia entender a razão que levaria uma equipe de pessoas altamente capacitadas a se dedicar à clonagem de um sistema operacional tão execrado como é o Windows.

Após experimentar um pouco da versão 0.3.9, percebi que o ReactOS tem muito potencial. Se tudo correr bem, o projeto tem tudo para repercutir como uma bomba no meio corporativo: inúmeras empresas que vivem hoje “amarradas” às escravizadoras políticas de licenciamento da Microsoft poderão finalmente se libertar desse jugo, tudo isso através da implementação de uma plataforma livre e compatível com os melhores softwares existentes no mercado.

É claro, a equipe do ReactOS tem um longo caminho a trilhar, visto que o sistema ainda tem várias imperfeições óbvias. Tudo isso, porém, é questão de tempo. Sinceramente espero que em dez ou quinze anos o ReactOS tenha se consolidado como uma real alternativa ao Windows, chacoalhando as estruturas do castelo de cartas que a Microsoft tem construído nos últimos vinte e tantos anos.

Fontes Consultadas

LOLI-QUERU, Eugenia. Interview with Jason Filby from the ReactOS Project [online], Disponível em
http://tinyurl.com/l66d97.

REACTOS TEAM. What is ReactOS [online], Disponível em http://tinyurl.com/kn7c8o.

KABIR, Ridwan A. Ekush OS, an alternative to MS Windows [online], Disponível em http://tinyurl.com/l7pcdg.

VAN GELDORP, Greg. Ekush: a CherryOS For the Windows World? [online], Disponível em http://tinyurl.com/kj7574.

*Artigo originalmente escrito por Cristiano Rohling para a revista Espirito Livre e publicada na edição deste mês. Reprodução autorizada pelos seus autores.

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6 thoughts on “ReactOS: Uma alternativa real ao Windows?

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  2. Quando o ReactOS estiver totalmente funcional e ameaçar um pouco o domínio da M$, aí é que nós veremos a sua capacidade de avançar. O Linux tem vencido este desafio e irá vencer sempre, mas sofreu muitos ataques sérios. Mas de qualquer forma, resta esperar. Mas se ele for vulnerável a pragas como o windows já fica meio complicado. Ainda acho a proposta do Linux bem mais interessante, madura e promissora.

  3. Um SO com núcleo NT e free, é garantia de sucesso. O projeto necessita de mais maturidade, mas está no rumo certo.
    O Linux é um SO muito bom e maduro, mas é somente podereso para servidores e appliances, como SO para desktop ele falha nessa missão. O Linux existe desde 1991 e não emplacou e será extremamente difícil emplacar em desktops. Por mais que existam distros amigáveis, ele barra no suporte à aplicativos e drivers, árvore de arquivos do SO não padronizado, sem um padrão para arquivos auto-instaláveis e etc.
    Respeito o projeto WINE e ele é muito bom, mas não há 100% de compatibilidade e estabilidade.
    Vírus? Qualquer SO possui brechas e falhas, são milhões de linhas de códigos, qualquer SO da “moda” é e sempre será o mais atacado. Aliás, segurança é um termo que envolve computador e usuário, este deve saber muito bem o que está fazendo, o SO por si só não pode se auto-defender contra um péssimo usuário.
    O ReactOS tem tudo para dar certo, um NT livre e maduro, terá muito apoio de diversas empresas ao redor do mundo, pois o WindowsServer é bom, mas caro demais, fora o descaso da Microsoft com seus clientes! E ninguém quer gastar muita $$$ para re-desenvolver seus programas para o Linux, sendo que não funcionará 100% em todas as distribuições. E eu também quero que todos os meus programas rodem, incluindo os antigos e novos, sem muito esforço!

  4. esse foi até agora, o mais interessante projeto que eu ja vi, pois mesmo estando em versão alfa, ele coloca recursos que a microsoft jamais pensou em colocar em seus S.O., como a organização de icones na tela e um repositorio de programas, retirado do linux, é logico, somente com esse repositorio eles poderiam oferecer uma opção com recursos visuais, como alguns temas, proprios para ele, instalação de icones, um dockbar, semelhante ao 7, gadgets na janela e outros… Embora o visual retrô seja legal, tbm; mas jamais me acostumei com o logo do sistema

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